O sentido da vida

Passava o dia a perambular, no espaço e dentro de sua cabeça. Perambulava pela casa, passando os dedos da mão esquerda pelos móveis velhos, para então se apoiar e agachar, procurando o sapato que se escondia sempre por baixo das cadeiras e que às vezes dava de aparecer no quarto sabe-se lá como. Perambulava pelo quintalzinho, e do quintalzinho à calçada e da calçada à outra e a outra e a outra.

No que pensava? “Em nada”, responderia. Repassava os nomes dos amigos de infância na cabeça, percebia que o joelho direito estava um pouco melhor, estalando menos, reparava no pé de jaca, e todos os dias se sentava por volta das 11h no banco da pracinha. Só existia, observava, perambulava. Contemplava o nada, que por ironia é tudo, se tirarmos as tantas e inventadas camadas de verniz que aplicamos às coisas.

Passa um menino correndo com a pipa. Passa o seu Osvaldo indo pro banco. Passa a dona Marilene com uma sacola de verduras. Uma moto barulhenta. O filho do Clóvis dirigindo o carro novo. Outro menino com outra pipa. O carro dos ovos. O Zezé entregando galão d’água.

— Seu João, qual é o sentido da vida?

— Oxi, que nem vi que você tava aí, menina! O que que você perguntou?

— Qual é o sentido da vida? É um trabalho da escola. A professora mandou a gente perguntar pros adultos qual é o sentido da vida.

— Sentido quer dizer o quê?

— Sentido, ué. Pra que que a gente vive…

— A gente vive… A gente vive é pra viver, ué. O sentido da vida é pra frente.

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8 de março :: A mulher e a flor

Foi no trabalho. Algum tipo de ação especial realizada pelo RH, sei lá. O estagiário passou com uma cesta cheia de botões de rosa envoltos em papel laminado. Foi entregando uma flor para cada mulher do departamento.

Ela deu um sorrisinho qualquer, disse um obrigada qualquer, pegou a tal flor que lhe incubiram e deixou sobre a mesa, ao lado do computador. Até pensou em dizer que não queria, mas ficou com dó do menino que distribuía os botões de rosa – coitado, parecia muito envergonhado – e achou melhor deixar pra lá. Voltou às planilhas.

Ficou a flor ali o dia todo. E o dia todo um ou outro colega dando seus “parabéns pelo dia da mulher”, mensagens em fundo rosa com poeminhas ridículos chegando no grupo de e-mail… “Mulher: beleza e mistério”, “bem aventurada quando ao redor dela acolhe, faz crescer e protege a vida” (mas que porcaria isso quer dizer?), “exemplo de amor”.

Já existe um dia do homem para mandarmos mensagens explicando a eles mesmos sua suposta “essência” segundo estereótipos babacas?

Na hora de ir embora, outra dúvida: o que fazer com a tal flor, de cabo imenso? Não cabe na bolsa… Isso no trem lotado vai encher o saco.

Jogou a flor na lixeirinha embaixo da mesa. Uma colega viu:

— Ué, vai jogar a flor no lixo?

— Vou. Não cabe na bolsa.

— Leva na mão. Não vai pegar bem se o pessoal ver que você jogou o presente no lixo.

Acatou, bovinamente. Caminhou pela rua segurando a tal flor – ela e tantas outras mulheres que desciam dos edifícios de escritório àquela hora. Os mesmos botões de rosa, envoltos no mesmo papel laminado. A mesma cara de nada e a vontade de só ir pra casa.

E lá ia ela, sentindo-se obrigada a carregar sua feminilidade na mão. Sua identidade de fêmea, seus cromossomos xx, seu ser que era “pura emoção”, “talento para o cuidar”, “montanha-russa hormonal, amor e beleza”… e “delicadeza”… aquela para quem se abre a merda da porta…

Chegando à entrada do metrô, sabia bem o que fazer.

Jogou a flor na sarjeta.

Pisoteou o caule e as pétalas até sentir que pelo menos uma parte da raiva tinha ido embora.

Foi a melhor parte do dia.

flor

Desanuviando

Havia tirado o cacto de dentro de casa, assim como uma caixa marrom que guardava os cacos de um copo quebrado. Havia limpado o fogão. Jogado o lixo fora. Feito uma limpa no guarda-roupa e se livrado, finalmente, da calça em que nunca coubera. A calça, agora desbotada, que ela comprara para usar no dia em que se visse livre dos dez quilos que julgava excessivos. Os dez quilos permaneceram, e a calça nunca serviu de calça – só de lembrete incômodo.

Fizera tudo isso numa tentativa de melhorar o clima da casa, livrar-se da energia parada e encardida. Quem sabe… Quem sabe funcionasse. Talvez essas pequenas tarefas ajudassem a restabelecer o equilíbrio entre suas conexões cerebrais. Talvez desfizessem as pequenas inflamações que agoniavam de leve o intestino, a pele do rosto e a gengiva. Como uma meditação. Ou um suco detox. Ou algo transcendental mesmo, envolvendo espíritos ou raios cósmicos indetectáveis ou plasma ou signos ou a fase da lua ou seres da quarta dimensão.

Tudo uma tentativa de desanuviar e finalmente se livrar da sensação de torpor.

torpor (1488 [?] VerSacr) ortoépia: ô
substantivo masculino
1 indiferença ou apatia moral; indolência, prostração
2 sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade
3 med ausência de reação a estímulos de intensidade normal

Precisava almoçar, avisava o estômago, e nossa personagem decide ir até um shopping, desses aglutinados com estações de metrô.

Caminha até a estação, roda a catraca, desce as escadas, entra no vagão. Fica observando as pessoas, todas com cara de angústia.

Desce na estação terminal, acessa o shopping, chega à praça de alimentação, come um prato de espaguete ao molho de camarão. Estava boa a comida, sem dúvida, mas ainda não o suficiente para desanuviar, para limpar o entorpecimento, a apatia, a preguiça, a moleza, a melancolia.

Quem sabe com a digestão…

Decide ir embora. Desce as escadas rolantes, cruza com mais pessoas pelo caminho. Todas com cara de angústia, de algo preso na garganta, um bololô que não desce para o estômago nem sai em forma de arroto ou vômito.

De repente, o convite em forma de grito meio cômico:

– Linda, não quer vir aqui fazer um spa com a gente?

Era o vendedor de um quiosque de produtos de beleza. O que havia em seu modo de falar? Algo de humor, de alegria, de descaramento. Fazer um spa? Num quiosque de shopping? Lambuzar-se de creme pra cara, pro colo, pros braços, pras pernas, pro calcanhar áspero, botar umas rodas de pepino nos olhos, uma toalha aquecida enrolada na cabeça… estender um colchonete e deitar ali, no meio do corredor, de frente para uma loja de armações de óculos. Empapada de creme hidratante.

Nossa personagem acha a proposta engraçada, sinceramente. Engraçada, e só, sem raivinha nenhuma. Sem interpretação irônica nem nada. Só engraçada. Sorri, diz um “não, obrigada” em baixo volume e continua andando.

E de repente o torpor começa a ir embora. Sai aos poucos, com o ar dos pulmões a cada expiração.

Deixa o shopping, roda a catraca, desce as escadas, senta-se num banco de um vagão de metrô vazio. Um momento de tranquilidade e leveza, como não vivia há muito tempo. Enquanto a composição desliza pelos trilhos, nossa personagem pensa no convite engraçado não aceito. O que havia ali? Uma graça, um leve susto, um chacoalhão? Seria o torpor um estado de decantação, do qual só se sai com uma sacudida que venha de fora?

Caminha até sua casa debaixo de uma chuva que chega com pingos pesados.

Talvez da próxima vez acabe aceitando o convite para o spa.

Nauseabunda

Nunca tivera uma crise de enxaqueca fora dali. Da cidade. Da grande enorme cidade.

“Não sou eu. É a cidade.” Suas crises de enxaqueca eram dadas a conclusões definitivas. Sabia que a condição estava ligada à hiperativação de neurônios em certas regiões do cérebro. Provavelmente regiões que eram dadas a conclusões definitivas.

Próxima estação: Sé. 

Desembarque pelo lado esquerdo do trem.

E sonhos. A sensação cortante e metálica do mal-estar às vezes trazia a lembrança de um sonho de anos atrás. Cacete, onde estava guardada essa memória? Um poço tampado numa chácara qualquer, um pinheiro gigantesco que sobe até as nuvens, uma tarde gelada. E o poço… O que existe no poço? Não sabe. Sabe, sim: a menina do filme, de cabelos longos e molhados, meio fantasma, meio zumbi.

Nunca impeça o fechamento das portas.

Mas não há medo na lembrança. Nada sairá do poço, é certo. E, junto com a certeza, vem novamente a sensação que o sonho trouxera na época: uma melancolia acolhedora. “Tudo bem você sentir pena de si mesma.” Meio patético, mas acolhedor.

Próxima estação: Liberdade.

E palavras. A palavra daquele dia, daquela crise de enxaqueca, já havia dado as caras também: nauseabunda. Sensação nauseabunda, cidade nauseabunda, vida nauseabunda. Náusea que abunda. Bunda. E lá ficava a palavra, saltitando em meio às luzes cortantes, aos calafrios metálicos, aos sons perfurantes. Nauseabunda.

E a palavra vinha se juntar ao dicionário de suas crises (ataques? acessos? transtornos?), organizado em ordem alfabética. Antes de perdigoto e de retículo, depois de amiantoBuscaglia, este último um sobrenome (italiano?) que aparece num nome de rua de um bairro ao qual não se chega sobre trilhos.

Próxima estação: São Joaquim.

Todo mundo com cara de nauseabundo, porque a cidade entra em tudo e em todos. Entra, neste momento, pela fresta da janela, aberturinha de nada que pouco alivia o mal-estar de um trem sem ar condicionado durante um verão fritante. Trem, metrô, composição… Música? Como ficaria na partitura esse ruído horrível de atrito metálico? Seria preciso rasgar a partitura com a ponta do lápis. E depois esfregar a partitura rasgada no chão, no piso de uma calçada bem suja do Centro, ali pela Santa Ifigênia. Pronto, perfeito. Agora é só tocar num violão velho e desafinado. Melhor: numa guitarra, porque guitarra berra, grita, se desespera.

Próxima estação: Vergueiro.

Uma moça que se maquia no caminho (para o trabalho, imagina-se). Corretivo, base, sombra, blush, batom, lápis de olho. Finalizada cada etapa, joga cada produto com raiva dentro da enorme e molenga bolsa preta. Justo – é o que a situação merece. E provavelmente o que esse emprego que ela tem merece também. E também a cidade, nauseabunda, que poderia se afogar num mar de base translúcida e pó fixador.

Próxima estação: Paraíso.

– É aqui que a gente desce?

– É.

O bom é que tem farmácia no Paraíso.

 

 

 

Bar-lanchonete

Piso frio, ladrilhos hidráulicos desgastados, balcão metálico, bancos altos, duas portas escancaradas para a calçada cheia de vai e vem, frutas penduradas no alto em sacos de redinha, caixa (onde se paga) de vidro com maços de cigarro e chiclete, um copeiro que carrega um pano de prato no ombro e lava rapidamente os copos naquela bucha que fica presa na pia (parece que se chama lava-copos mesmo), enquanto cumprimenta o seu Lino, que passa lentamente na calçada palitando os dentes, voltando do almoço para a banca de jornal que ele abre diariamente (exceto domingos, Natal e Ano Novo) desde 1982. “Aê, seu Linooo, separa lá um Agora pra mim.” E xuc xuc o copo no lava-copo. “Opa! Vou ver se tem e passa lá depois.” E o copo do enxágue ao escorredor, barulho de copinhos batendo. Na TV, ainda de tubo, o jornal da hora do almoço. Capturaram o fugitivo, diz o jovem jornalista apresentador cheio de autocontrole, capaz de transitar do tom alegrinho pro tom tristinho pro tom levemente indignado pro sorrisinho da matéria leve de sexta-feira. “Ah, lá, dona Elza, pegaram o cara.” “Pegaram? Ahhh, desgraçaaado.” Dona Elza bebendo seu café adoçado no copinho americano. Dá uma tossida, coisa de quem fuma desde sempre. “Ó a cara do desgraçado.” E a estufa segue esquentando os salgados: coxinha, esfiha de carne e de calabresa, empada de frango, pastel de palmito, bolinho de queijo, bolinho de carne moída com ovo (bolovo é coisa de rede social), salsicha no molho, linguiça com cebola. Chega o rapaz que trabalha fazendo entregas pro mercado. “Qué o quê, Tião?”. “Jão, faz um x-salada pra mim?” “É pra já.” “Ah, Jão, bota um ovo também.” “Boto.” “Você bota ovo, Jão?” “Tá me tirando? Agora vai com ovo, hein. X-egg salada.” “Opa! Isso mesmo que eu quero. Pode fazer.”

Signo de Virgem

O apartamento 122-D (fictício, por motivos óbvios) é habitado por dois gatos, um cachorro e muitas certezas.

Tem certeza, diz a moradora, de que só dá pra viver esse monte de gente junto se houver ordem no condomínio. As coisas têm que ser certinhas, sabe? É assim que ela gosta. A piscina pode ser usada por visitantes? (Não respondo. Não é para eu responder. Nunca respondo uma pergunta de alguém que tem certezas.) Não, é para moradores, SÓ para moradores. Então, ela prefere nem ter visitas em casa, que é para não dar problema.

Certezas, diz ela, porque é do signo de Virgem. Virginiana é o adjetivo, certo? Nunca conteste a certeza dos signos de alguém que acredita em signos. Ela se esforça para ser virginiana, dá para perceber. Um esforço de décadas construindo a si mesma segundo as forças e os defeitos de uma certa personalidade estabelecida nas posições, regências, influências e humores dos astros.

Nós, seres humanos, gostamos de caixinhas mentais. De colocar os outros e a nós mesmos em caixas organizadoras etiquetadas. Dormimos bem com a tranquilidade das ideias e personalidades bem ordenadas. Às vezes vem alguém reclamar das caixas e bagunçar tudo e falar que esse sistema está todo errado. Só para reorganizar tudo em um novo sistema de caixas e etiquetas. Mas alguma bagunça sempre fica, e é ela que nos salva.

Reclamaram da sacada dela, enfim. Algo sobre um incômodo com uma planta trepadeira, algo assim, coisa pequena, besta. Concordo: as pessoas aqui têm problemas com plantas. Querem plantas, mas cuidam mal, e então veem as plantas morrerem e alimentam a própria sensação de insuficiência. Alguns acabam até detestando plantas e se incomodam com quem consegue mantê-las vivas e encorpadas. “Mantenha suas plantas no limite da sua sacada. Cidade é lugar de linhas retas.”

Enfim, reclamaram da sacada dela, sendo que são tantas as sacadas aqui com coisas horríveis, ela diz. Mas quem define o que é horrível e o que é belo? (Não questiono. Nunca questiono quem tem certezas – costumo dizer que por preguiça, mas a verdade é que é por medo de rejeição e de conflitos.)

Ela olha nos meus olhos enquanto penso no quanto minha sacada é um pouco horrível (eu sei, e tudo bem) e me serve mais uma certeza: “consigo saber quem são as pessoas só de olhar nos olhos”. Aponta para um rapaz ao lado. “Ele ali, por exemplo, já sei que é ótima pessoa só de olhar no rosto dele.” E sorri. Eu também sorrio. Eu não sou uma ótima pessoa (eu sei, e tudo bem), nisso concordamos.

Ela se despede e segue para o mercado, acompanhada de suas certezas. Parecem conviver bem.

Baratinhas

Há dias em que eu acordo já sabendo que encontrarei umas baratinhas pela casa. Inhas, baratinhas, dessas discretas e variadas. Existem as compridinhas, as redondinhas, as palidinhas, as escurinhas, francesinhas, alemãzinhas, umas tão minúsculas que alguns diriam nem merecer a alcunha pesada de barata. Barata, coisa séria, sisuda, autoridade. Mas são baratas, eu sei, porque aparecem junto com as outras, dividem os espaços, fazem conluio. Todas paulistinhas, tanto quanto eu.

Eu sei que é só procurar. Porque essas baratinhas existem tanto quanto minha certeza de insuficiência. Tudo o que fiz, os inseticidas, as iscas, a faxina, os pratos quebrados no susto… Nada é suficiente para garantir a ausência total e completa, 0% de baratinhas. Mas se até os sabonetes bacteridas são 99% eficientes, imagine eu, que mal me esforço.

É que as baratinhas vêm de dentro, entende? Não de mim, claro, que ainda não atingi esse nível de leitura da realidade, mas do prédio, das paredes, da laje, dos buraquinhos no concreto. Elas se criam nos espaços que não vemos e que, por não vermos, são o não-espaço. Passam pelo buraquinho titico de nada que nem existe.

As baratinhas são diferentes das baratas de peso, as grandes, as voadoras, os baratões. Já falei? Essas vêm de fora, voando pela janela ou caminhando pela fachada do edifício. Outro dia vi uma caminhar rapidamente pelo revestimento externo texturizado até desaparecer (entrar pela sacada) por volta do nono ou décimo andar.

Sim, as baratinhas… Há esses dias em que acordo e sei que vou encontrá-las. É só buscar os sinais: cisquinhos pretos acumulados nos cantinhos. Uma pessoa otimista diria ser pó de café, poeirinha, mas eu não me iludo. Sei que é cocô de baratinha.

Lá estão os cisquinhos pretos embaixo de uma dobradiça de armário. Baratinhas adoram dobradiças de armário, eu sei. Sei muito sobre elas: que se escondem durante o dia, que saem à noite em busca de comida, que gostam de restos, de comida de cachorro, de comida de gato, que são canibais. Fiz minhas pesquisas.

Uma esguichadinha de inseticida e voilà: cai a primeira, redondinha, uns 4 milímetros de tamanho; alguns segundinhos e cai a segunda, compridinha, magrelinha, uns 9 milímetros. Nojinho. Talvez sintam o mesmo em relação a mim. Sentiam, porque agora mortas. Mortinhas. Elas ou eu? (Aquela pergunta de fundo filosófico para constar, em respeito a você, leitor, porque um texto sobre baratinhas jamais poderia ser só um texto sobre baratinhas, onde já se viu?)

Vitória, mas também derrota. Vitoriazinha, derrotinha. Vêm a calhar.