Egídio

A notícia correu rapidamente pelo prédio. Dona Telma, do 66, tinha um ser de estimação estranho. Exótico. Estava com ela há bastante tempo, ao que parece. O bom, concluía-se em conversas arrastadas de elevador, é que pelo menos não fazia barulho nem perturbava os vizinhos.

“É tipo um camaleão?”

“Não exatamente.”

“Tipo um porco? Tem gente que tem porco em apartamento.”

“Também não.”

“Como que é, então?”

“Calma, que você logo vai ver.”

Cada um calçou seu chinelo e subiu a escada rumo ao apartamento da Dona Telma.

A dupla chegou, tocou a campainha, e quase imediatamente a moradora do 66 abriu – como se não apenas já soubesse da visita, mas também a aguardasse com alguma ansiedade.

“Oi, Dona Telma. Eu trouxe o menino para conhecer o Egídio.”

“Ah, sim, sim. Vamos entrando, vamos entrando. Fica à vontade, é só ir lá para o meu quarto.”

A mãe puxou o filho pela mão esquerda em direção ao quarto. Ela mesma estava ansiosa para ver mais uma vez aquilo que ninguém sabia definir.

O garoto não viu a cama bagunçada, as roupas sujas acumuladas no canto, nem o quadro de praia torto ao lado da janela. Olhava atônito para a parede oposta à porta.

“Esse é o Egídio?”

“É.”

Egídio era um enorme buraco, fixo na parede a dois palmos da cabeceira da cama. Uma elipse quase perfeita, um metro e meio de largura por uns 40 centímetros de altura.

Não dava para o outro lado da parede. Dava para o nada. O nada absoluto, o vazio. Não fazia barulho, nada. Nada havia ali. Nem cor, nem cheiro, nem vida. Nem morte.

O menino ficou encarando o buraco por alguns segundos.

“E o que ele faz… esse Egídio?”

“Ele me lembra, fio”, respondeu Dona Telma. “Ele me lembra como a gente se sente quando olha para o nada.”

“E por que se chama Egídio?”

“Era o nome do meu marido.”

O marido de Dona Telma – essa era a história que agora corria de boca em boca entre os andares – havia ido embora 30 anos atrás. “Do nada”, ela dizia, embora nem todo mundo acreditasse (“algum motivo tinha que ter, não é possível”).

Para quem se interessasse, Dona Telma contava a história de bom grado. Em resumo, ocorrera que Egídio, o então marido, dizia estar cansado, confuso, agoniado. Não queria conversar nem procurar um médico, nem um padre, nem uma benzedeira. Nada disso. Fez uma mala e saiu. Foi embora para nunca mais voltar. Sumiu. Evaporou-se.

No dia seguinte à partida de Egídio, começou a brotar aquele buraco na cabeceira da cama. Dona Telma inventou para si mesma que aquilo era uma transmutação da presença-ausência do homem que por 12 anos dividira aquele espaço com ela. Egídio.

“E não dá pra tirar ele daí?”

“Não, fio. Eu já tentei, e não sai por nada. Nem com água sanitária… Mas a verdade é que acabei me acostumando com ele aí.”

“E se pintar por cima?”

“Já tentei também, mas a tinta não pega.” – Dona Telma deu um rápido suspiro de frustração. – “Acho que vou é encomendar um espelho pra botar em cima.”

Pecado capital

A mulher entra no vagão do metrô e logo pede em voz alta “uma ajuda, um pão, um passe, um pacote de bolacha, qualquer coisa”.

A moça de vermelho oferece à mulher cinco reais, numa nota dobradinha.

A moça de branco se surpreende: “cinco reais é bastante, hein! Tá sobrando”.

— Pior que não, colega, mas hoje tive um dia bom.

— Que lhe volte em dobro.

— Vai voltar. Sou pobre, mas ajudo quando posso.

— É… Quem ajuda o pobre é outro pobre, na maioria das vezes.

— Eu sei o que é passar fome, dever até as calças… Mas eu sei que o que vai volta. Tenho saúde pra trabalhar e faço dinheiro amanhã de novo.

— Verdade. Graças a Deus.

— Mas é… é pobre ajudando pobre. Gente rica é avarenta.

— Gente rica vive com medo de virar pobre.

— Mesquinhez, né? Mata a gente por dentro.

O novo brasil [sic]

Sonhava com o fim da vagabundagem, da enrolação, do mimimi. Com o dia em que fechariam todos os parques, praças e esses lugares onde nada se faz. Com o fim dos bancos toscos em paradas de ônibus. Tinha que ter era nada pra sentar. Nada! Quem se aguentar em pé que vá, quem não se aguentar que fique em casa. Tem nada que facilitar pra ninguém, não. Que o meu ninguém facilitou. Sonhava com o dia em que o quintalzinho de casa fosse cimentado, liso, limpo. Sem essa sujeira de terra, folha seca. Sem essas lagartas gordas que caem da árvore do vizinho. Aqui não é lugar de árvore. Seria feliz de verdade no dia em que todo mundo fosse só de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, de domingo a domingo, que trabalho nunca é demais. Quem trabalha não tem tempo de pensar besteira. Sonhava com o fim do parquinho na esquina. Lugar de criança é na escola, e se não estiver na escola é em casa. Lendo. Lendo, mas não esses livros de bobeiragem, historinha. Historinha pra quê? Tem que ser livro de cálculo, de matemática, de finança. Só assim. Só assim mesmo, porque com esse povo não pode dar brecha. Dá brecha, olha o que dá. Bebida alcoólica tinha que acabar tudo, nem uma cerveja, nada, nada. Começa a beber álcool, de pouquinho, e logo tá faltando no trabalho e dando prejuízo pro patrão. Cigarro? Ah, cigarro tudo bem, né? Que quem fuma consegue trabalhar. Só não pode ficar parando demais o trabalho pra fumar. Porque a vida é aqui, ó, no raciocínio. Tem que tá acordado. Nada tem que ser de graça, nada, nada. É cruel? É, mas é a vida. É assim ou não vai pra frente… … … Só dou graças a deus que minha aposentadoria saiu faz tempo já.

Intolerável

Mauro cutuca o nariz enquanto dirige, mas acha um absurdo quem rói unha.

Olga rói unha, mas acha inadmissível ir ao banco de chinelo.

Jonas vai ao banco de chinelo, mas se revolta com quem usa pochete.

Milena usa pochete, mas jamais levaria a sério quem fala “tipo assim”.

Zé fala “tipo assim” e acha “coisa de gente porca” não limpar as janelas de casa por fora.

Luana não limpa as janelas, mas se revolta com quem faz xixi no banho.

Gu faz xixi no banho, mas xinga quem não usa fio dental.

Lia não usa fio dental, mas diz que almoçar sem lavar as mãos é “coisa de preguiçoso sujo”.

João não lava as mãos antes de comer e abomina quem troca “mas” por “mais”.

Cibele troca “mas” por “mais”, mas zoa com quem põe vírgula entre sujeito e predicado.

Mauro… Mauro, continua cutucando o nariz enquanto o semáforo não abre.

Passarinhos

Você reparou que não há mais som de passarinhos aqui?

Lembra daqueles que cantavam de manhã? Um canto tão próximo, tão próximo, que pareciam estar aqui dentro de casa… Não lembra? Mas como não?! Foi assim por anos…

Aqueles… sabe? Aqueles que descobrimos depois serem passarinhos engaiolados, que o vizinho deixava à noite na lavanderia e ao longo do dia na varanda.

Então, é desse vizinho que falo, o do 177D. Parece que o apartamento está vazio agora. Ele se mudou, e com ele os passarinhos engaiolados.

Poxa, você ainda não lembra? Os passarinhos! Aqueles que cantavam de manhã. Toda manhã. Gostavam mais das manhãs de sol.

Você não lembra, né? Mas, enfim, é por isso que não os ouvimos mais. Os passarinhos engaiolados foram embora com o dono (e como poderia ser diferente?).

[Já os livres… esses deixaram este lugar há muito mais tempo.]

Cidadão(s)

Com a mão esquerda no volante e a direita no celular, comentou que tinha uma grana guardada e pretendia investir na bolsa. Um tal fundo de uma tal agência ou algo do tipo que faria R$ 5 mil virarem R$ 1 milhão em coisa de dez anos. Nada dessa enganação de Betina que apareceu na internet. Coisa realista!

“Imagina: com R$ 1 milhão eu me aposento antes dos 40. Vou só investir, colocar dinheirinho ali, aqui, pã, pã… E tô feito! Vou morar na Riviera, hein! Sensacional.”

Parou no farol, fez que não com a cabeça para qualquer coisa que o homem do outro lado do vidro dizia.

Ah, lá, pedindo dinheiro a essa hora, hora de tá trabalhando… Moleza isso aí. Pegar no pesado esse aí não quer, né?”

O sentido da vida

Passava o dia a perambular, no espaço e dentro de sua cabeça. Perambulava pela casa, passando os dedos da mão esquerda pelos móveis velhos, para então se apoiar e agachar, procurando o sapato que se escondia sempre por baixo das cadeiras e que às vezes dava de aparecer no quarto sabe-se lá como. Perambulava pelo quintalzinho, e do quintalzinho à calçada e da calçada à outra e a outra e a outra.

No que pensava? “Em nada”, responderia. Repassava os nomes dos amigos de infância na cabeça, percebia que o joelho direito estava um pouco melhor, estalando menos, reparava no pé de jaca, e todos os dias se sentava por volta das 11h no banco da pracinha. Só existia, observava, perambulava. Contemplava o nada, que por ironia é tudo, se tirarmos as tantas e inventadas camadas de verniz que aplicamos às coisas.

Passa um menino correndo com a pipa. Passa o seu Osvaldo indo pro banco. Passa a dona Marilene com uma sacola de verduras. Uma moto barulhenta. O filho do Clóvis dirigindo o carro novo. Outro menino com outra pipa. O carro dos ovos. O Zezé entregando galão d’água.

— Seu João, qual é o sentido da vida?

— Oxe, que nem vi que você tava aí, menina! O quê que você perguntou?

— Qual é o sentido da vida? É um trabalho da escola. A professora mandou a gente perguntar pros adultos qual é o sentido da vida.

— Sentido quer dizer o quê?

— Sentido, ué. Pra quê que a gente vive…

— A gente vive… A gente vive é pra viver, ué. O sentido da vida é pra frente.