O novo brasil [sic]

Sonhava com o fim da vagabundagem, da enrolação, do mimimi. Com o dia em que fechariam todos os parques, praças e esses lugares onde nada se faz. Com o fim dos bancos toscos em paradas de ônibus. Tinha que ter era nada pra sentar. Nada! Quem se aguentar em pé que vá, quem não se aguentar que fique em casa. Tem nada que facilitar pra ninguém, não. Que o meu ninguém facilitou. Sonhava com o dia em que o quintalzinho de casa fosse cimentado, liso, limpo. Sem essa sujeira de terra, folha seca. Sem essas lagartas gordas que caem da árvore do vizinho. Aqui não é lugar de árvore. Seria feliz de verdade no dia em que todo mundo fosse só de casa pro trabalho e do trabalho pra casa, de domingo a domingo, que trabalho nunca é demais. Quem trabalha não tem tempo de pensar besteira. Sonhava com o fim do parquinho na esquina. Lugar de criança é na escola, e se não estiver na escola é em casa. Lendo. Lendo, mas não esses livros de bobeiragem, historinha. Historinha pra quê? Tem que ser livro de cálculo, de matemática, de finança. Só assim. Só assim mesmo, porque com esse povo não pode dar brecha. Dá brecha, olha o que dá. Bebida alcoólica tinha que acabar tudo, nem uma cerveja, nada, nada. Começa a beber álcool, de pouquinho, e logo tá faltando no trabalho e dando prejuízo pro patrão. Cigarro? Ah, cigarro tudo bem, né? Que quem fuma consegue trabalhar. Só não pode ficar parando demais o trabalho pra fumar. Porque a vida é aqui, ó, no raciocínio. Tem que tá acordado. Nada tem que ser de graça, nada, nada. É cruel? É, mas é a vida. É assim ou não vai pra frente… … … Só dou graças a deus que minha aposentadoria saiu faz tempo já.

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Intolerável

Mauro cutuca o nariz enquanto dirige, mas acha um absurdo quem rói unha.

Olga rói unha, mas acha inadmissível ir ao banco de chinelo.

Jonas vai ao banco de chinelo, mas se revolta com quem usa pochete.

Milena usa pochete, mas jamais levaria a sério quem fala “tipo assim”.

Zé fala “tipo assim” e acha “coisa de gente porca” não limpar as janelas de casa por fora.

Luana não limpa as janelas, mas se revolta com quem faz xixi no banho.

Gu faz xixi no banho, mas xinga quem não usa fio dental.

Lia não usa fio dental, mas diz que almoçar sem lavar as mãos é “coisa de preguiçoso sujo”.

João não lava as mãos antes de comer e abomina quem troca “mas” por “mais”.

Cibele troca “mas” por “mais”, mas zoa com quem põe vírgula entre sujeito e predicado.

Mauro… Mauro, continua cutucando o nariz enquanto o semáforo não abre.

Passarinhos

Você reparou que não há mais som de passarinhos aqui?

Lembra daqueles que cantavam de manhã? Um canto tão próximo, tão próximo, que pareciam estar aqui dentro de casa… Não lembra? Mas como não?! Foi assim por anos…

Aqueles… sabe? Aqueles que descobrimos depois serem passarinhos engaiolados, que o vizinho deixava à noite na lavanderia e ao longo do dia na varanda.

Então, é desse vizinho que falo, o do 177D. Parece que o apartamento está vazio agora. Ele se mudou, e com ele os passarinhos engaiolados.

Poxa, você ainda não lembra? Os passarinhos! Aqueles que cantavam de manhã. Toda manhã. Gostavam mais das manhãs de sol.

Você não lembra, né? Mas, enfim, é por isso que não os ouvimos mais. Os passarinhos engaiolados foram embora com o dono (e como poderia ser diferente?).

[Já os livres… esses deixaram este lugar há muito mais tempo.]

Cidadão(s)

Com a mão esquerda no volante e a direita no celular, comentou que tinha uma grana guardada e pretendia investir na bolsa. Um tal fundo de uma tal agência ou algo do tipo que faria R$ 5 mil virarem R$ 1 milhão em coisa de dez anos. Nada dessa enganação de Betina que apareceu na internet. Coisa realista!

“Imagina: com R$ 1 milhão eu me aposento antes dos 40. Vou só investir, colocar dinheirinho ali, aqui, pã, pã… E tô feito! Vou morar na Riviera, hein! Sensacional.”

Parou no farol, fez que não com a cabeça para qualquer coisa que o homem do outro lado do vidro dizia.

Ah, lá, pedindo dinheiro a essa hora, hora de tá trabalhando… Moleza isso aí. Pegar no pesado esse aí não quer, né?”

O sentido da vida

Passava o dia a perambular, no espaço e dentro de sua cabeça. Perambulava pela casa, passando os dedos da mão esquerda pelos móveis velhos, para então se apoiar e agachar, procurando o sapato que se escondia sempre por baixo das cadeiras e que às vezes dava de aparecer no quarto sabe-se lá como. Perambulava pelo quintalzinho, e do quintalzinho à calçada e da calçada à outra e a outra e a outra.

No que pensava? “Em nada”, responderia. Repassava os nomes dos amigos de infância na cabeça, percebia que o joelho direito estava um pouco melhor, estalando menos, reparava no pé de jaca, e todos os dias se sentava por volta das 11h no banco da pracinha. Só existia, observava, perambulava. Contemplava o nada, que por ironia é tudo, se tirarmos as tantas e inventadas camadas de verniz que aplicamos às coisas.

Passa um menino correndo com a pipa. Passa o seu Osvaldo indo pro banco. Passa a dona Marilene com uma sacola de verduras. Uma moto barulhenta. O filho do Clóvis dirigindo o carro novo. Outro menino com outra pipa. O carro dos ovos. O Zezé entregando galão d’água.

— Seu João, qual é o sentido da vida?

— Oxe, que nem vi que você tava aí, menina! O quê que você perguntou?

— Qual é o sentido da vida? É um trabalho da escola. A professora mandou a gente perguntar pros adultos qual é o sentido da vida.

— Sentido quer dizer o quê?

— Sentido, ué. Pra quê que a gente vive…

— A gente vive… A gente vive é pra viver, ué. O sentido da vida é pra frente.

8 de março :: A mulher e a flor

Foi no trabalho. Algum tipo de ação especial realizada pelo RH, sei lá. O estagiário passou com uma cesta cheia de botões de rosa envoltos em papel laminado. Foi entregando uma flor para cada mulher do departamento.

Ela deu um sorrisinho qualquer, disse um obrigada qualquer, pegou a tal flor que lhe incubiram e deixou sobre a mesa, ao lado do computador. Até pensou em dizer que não queria, mas ficou com dó do menino que distribuía os botões de rosa – coitado, parecia muito envergonhado – e achou melhor deixar pra lá. Voltou às planilhas.

Ficou a flor ali o dia todo. E o dia todo um ou outro colega dando seus “parabéns pelo dia da mulher”, mensagens em fundo rosa com poeminhas ridículos chegando no grupo de e-mail… “Mulher: beleza e mistério”, “bem aventurada quando ao redor dela acolhe, faz crescer e protege a vida” (mas que porcaria isso quer dizer?), “exemplo de amor”.

Já existe um dia do homem para mandarmos mensagens explicando a eles mesmos sua suposta “essência” segundo estereótipos babacas?

Na hora de ir embora, outra dúvida: o que fazer com a tal flor, de cabo imenso? Não cabe na bolsa… Isso no trem lotado vai encher o saco.

Jogou a flor na lixeirinha embaixo da mesa. Uma colega viu:

— Ué, vai jogar a flor no lixo?

— Vou. Não cabe na bolsa.

— Leva na mão. Não vai pegar bem se o pessoal ver que você jogou o presente no lixo.

Acatou, bovinamente. Caminhou pela rua segurando a tal flor – ela e tantas outras mulheres que desciam dos edifícios de escritório àquela hora. Os mesmos botões de rosa, envoltos no mesmo papel laminado. A mesma cara de nada e a vontade de só ir pra casa.

E lá ia ela, sentindo-se obrigada a carregar sua feminilidade na mão. Sua identidade de fêmea, seus cromossomos xx, seu ser que era “pura emoção”, “talento para o cuidar”, “montanha-russa hormonal, amor e beleza”… e “delicadeza”… aquela para quem se abre a merda da porta…

Chegando à entrada do metrô, sabia bem o que fazer.

Jogou a flor na sarjeta.

Pisoteou o caule e as pétalas até sentir que pelo menos uma parte da raiva tinha ido embora.

Foi a melhor parte do dia.

flor

Desanuviando

Havia tirado o cacto de dentro de casa, assim como uma caixa marrom que guardava os cacos de um copo quebrado. Havia limpado o fogão. Jogado o lixo fora. Feito uma limpa no guarda-roupa e se livrado, finalmente, da calça em que nunca coubera. A calça, agora desbotada, que ela comprara para usar no dia em que se visse livre dos dez quilos que julgava excessivos. Os dez quilos permaneceram, e a calça nunca serviu de calça – só de lembrete incômodo.

Fizera tudo isso numa tentativa de melhorar o clima da casa, livrar-se da energia parada e encardida. Quem sabe… Quem sabe funcionasse. Talvez essas pequenas tarefas ajudassem a restabelecer o equilíbrio entre suas conexões cerebrais. Talvez desfizessem as pequenas inflamações que agoniavam de leve o intestino, a pele do rosto e a gengiva. Como uma meditação. Ou um suco detox. Ou algo transcendental mesmo, envolvendo espíritos ou raios cósmicos indetectáveis ou plasma ou signos ou a fase da lua ou seres da quarta dimensão.

Tudo uma tentativa de desanuviar e finalmente se livrar da sensação de torpor.

torpor (1488 [?] VerSacr) ortoépia: ô
substantivo masculino
1 indiferença ou apatia moral; indolência, prostração
2 sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade
3 med ausência de reação a estímulos de intensidade normal

Precisava almoçar, avisava o estômago, e nossa personagem decide ir até um shopping, desses aglutinados com estações de metrô.

Caminha até a estação, roda a catraca, desce as escadas, entra no vagão. Fica observando as pessoas, todas com cara de angústia.

Desce na estação terminal, acessa o shopping, chega à praça de alimentação, come um prato de espaguete ao molho de camarão. Estava boa a comida, sem dúvida, mas ainda não o suficiente para desanuviar, para limpar o entorpecimento, a apatia, a preguiça, a moleza, a melancolia.

Quem sabe com a digestão…

Decide ir embora. Desce as escadas rolantes, cruza com mais pessoas pelo caminho. Todas com cara de angústia, de algo preso na garganta, um bololô que não desce para o estômago nem sai em forma de arroto ou vômito.

De repente, o convite em forma de grito meio cômico:

– Linda, não quer vir aqui fazer um spa com a gente?

Era o vendedor de um quiosque de produtos de beleza. O que havia em seu modo de falar? Algo de humor, de alegria, de descaramento. Fazer um spa? Num quiosque de shopping? Lambuzar-se de creme pra cara, pro colo, pros braços, pras pernas, pro calcanhar áspero, botar umas rodas de pepino nos olhos, uma toalha aquecida enrolada na cabeça… estender um colchonete e deitar ali, no meio do corredor, de frente para uma loja de armações de óculos. Empapada de creme hidratante.

Nossa personagem acha a proposta engraçada, sinceramente. Engraçada, e só, sem raivinha nenhuma. Sem interpretação irônica nem nada. Só engraçada. Sorri, diz um “não, obrigada” em baixo volume e continua andando.

E de repente o torpor começa a ir embora. Sai aos poucos, com o ar dos pulmões a cada expiração.

Deixa o shopping, roda a catraca, desce as escadas, senta-se num banco de um vagão de metrô vazio. Um momento de tranquilidade e leveza, como não vivia há muito tempo. Enquanto a composição desliza pelos trilhos, nossa personagem pensa no convite engraçado não aceito. O que havia ali? Uma graça, um leve susto, um chacoalhão? Seria o torpor um estado de decantação, do qual só se sai com uma sacudida que venha de fora?

Caminha até sua casa debaixo de uma chuva que chega com pingos pesados.

Talvez da próxima vez acabe aceitando o convite para o spa.