Não adianta

Meia hora de esteira não vai adiantar nada se você não fizer uma dieta, que não vai adiantar nada se você não trocar – inclusive – a pizza de sexta por uma saladinha, que não vai adiantar nada se você se empanturrar de tomate seco e não trocar o arroz branco por integral, o musse de chocolate por abacate com cacau e o pão branco por integral, que não vai adiantar nada se você não trocar toda e qualquer bebida por água, se você não trocar o delivery por comida caseira – mas não qualquer comida caseira, veja bem -, que não vai adiantar nada se você não dormir exatamente sete horas e meia por noite, que não adiantam nada sem um exercício de alongamento, que não vai adiantar nada se você não fizer uma musculação, que não vai adiantar nada se você não fizer um exercício aeróbico, que não adianta muito para baixar o colesterol – porque, bem, tem a genética também…

A importância de estar na média

(atenção: contém ideias que podem ser consideradas prejudiciais dentro do atual discurso motivador contemporâneo)

– Quem está na média não está abaixo dela. Isso, por si só, já é uma razão para alívio.

– Estar na média é dar visibilidade a talentos. Sem as pessoas medianas, pessoas acima da média não seriam notadas.

– Estar na média é correr um risco menor de ser vítima de encheções de saco. Quem se situa nos extremos, para o bem ou para o mal, está mais exposto. Talentosos ganham responsabilidades e cobranças sem fim; pessoas abaixo da média são constantemente vítimas de críticas e do ímpeto salvador de gente disposta a “ajudar”.

– As pessoas medianas são aquelas que mantêm tudo isso aí funcionando. Elas são a grande massa que cumpre as pequenas tarefas, as coisas do dia a dia. Se a vida dependesse apenas das coisas e pessoas extraordinárias, já estaríamos todos mortos. A teoria da relatividade ajuda a explicar o mundo, mas não põe comida na mesa.

Medianos, o mundo (composto, em sua maior parte, por gente mediana) lhes deve agradecimentos sem fim.

– Quem está na média e admite isso dá exemplo de sinceridade e honestidade – apesar, claro, de isso não ser bem visto em tempos dominados por discursos de superação, ambição, motivação, pró-atividade, destaque etc. A maioria das pessoas que se considera talentosa e faz propaganda disso vive uma mentira. O discurso do “sou muito bom” pode até sobreviver em um primeiro contato, mas não se sustenta no médio e longo prazo. E passar publicamente de supostamente talentoso a mediano é um tombo e tanto. Melhor é passar de assumidamente mediano a “olha… superou minhas expectativas”.

– Aceitar a própria mediocridade (palavra injustamente negativa) é libertar-se. O próximo passo será aprender a fazer piada com ela, o que equivale a tirar um peso gigantesco dos ombros.

Ameaça de suicídio na esquina de casa

Quem? Um homem de camiseta preta e calça jeans, aparentando ter por volta de 40 anos.

O quê? Ameaçava se suicidar.

Quando? Entre as 20h e as 21h de hoje.

Onde? Na torre da igrejinha aqui na esquina de casa.

Como? Sentado no beiral da torre pelo lado de fora, a uns 10 metros do chão e perto dos cabos de energia. Acho que cheguei a vê-lo com um megafone na mão, mas agora não tenho certeza.

Por quê? Boa pergunta. A única pista que pode levar a alguma hipótese é o fato de uma mulher ter sido chamada para participar da negociação.

Anotações extras:

– A energia elétrica foi cortada em toda a rua, fato que irritava os moradores e fazia boa parte deles sugerir que o potencial suicida fosse às vias de fato e acabasse logo com aquilo. Destaque para um grupo de mulheres que reclamavam por terem ficado presas no elevador: “Falta alguém ir lá e dar um empurrãozinho”.

– Personagens na cena: potencial suicida; policiais; equipe de resgate/bombeiros; mulher chamada para negociar; funcionário da Eletropaulo; curiosos, alguns filmando; um grupo de crianças brincando de pega-pega.

– Como acabou: ele não pulou. Foi resgatado e levado até uma ambulância, enquanto parte dos curiosos aplaudia e outra parte gritava [custei a acreditar] “Cooooorno, coooorno”.

– Acabado o drama público, o objetivo dos moradores da rua era ter a energia religada.

Morador 1: “E a luz!?”

Funcionário da Eletropaulo: “Daqui uns 40 minutos.”

Morador 2: “40 minutos?! Pô! Tô precisando de uma ducha!”

Moradora 3: “Tenho três hérnias de disco e moro no 11º andar. Não vou subir de escada.”

– Lembrar da cena do pai com o filho nos ombros segurando um pedaço da fita de isolamento.

Breve análise comportamental dos seres humanos em situação de desembarque em estação terminal de metrô na cidade de São Paulo

. Minoria 1 (m1): seres humanos que correm/caminham muito rápido. Geralmente, são os primeiros a deixar o trem após as portas se abrirem e também os primeiros a passar por catracas de entrada/saída ou de transferência.

Subclassificação:

Tipo A: atrasados em geral.

Tipo B: portadores de Síndrome do Intestino Irritável ou de outras anormalidades – crônicas ou agudas – dos sistemas digestivo e/ou urinário.

Tipo C: portadores de Síndrome da Pressa (“correm por correr”).

. Maioria (M): seres humanos que caminham em velocidade típica. Costumam sair do trem logo após indivíduos do tipo m1 e se encaminhar diretamente às escadas. Têm alta tolerância à situação conhecida como “muvuca”.

Subclassificação:

Tipo A: seres humanos conhecidos como “educados”, que não empurram e não tentam “furar” a fila em escadas rolantes, corredores e afins; e/ou que, conscientes da própria velocidade reduzida, concentram-se à direita com o intuito de “dar passagem”.

Tipo B: seres humanos conhecidos como “mal educados” – oposto ao Tipo A, de forma geral.

* observação: Grupo M carece de observações mais detalhadas – que podem ou não resultar na criação de novos subgrupos – dados a heterogeneidade e o grande número de indivíduos que o compõem.

. Minoria 2 (m2): seres humanos que, basicamente, esperam, esperam e esperam mais um pouco; costumam ser os últimos a deixar o trem no momento de desembarque. Não é incomum presenciar alguns deles sendo abordados por fiscais da empresa operadora ainda dentro do trem, dado seu caráter potencialmente procrastinador. São comumente vistos em pé na plataforma de desembarque perto de escadas rolantes, meramente esperando e/ou observando a disputa de espaço que surge logo após a situação de desembarque entre indivíduos do tipo M. Costumam ter baixa tolerância à situação conhecida como “muvuca”.

Subclassificação:

Tipo A: desocupados em geral.

Tipo B: despreocupados em geral.

Tipo C: seres humanos conhecidos como “frescos” (criados no iogurte, piás de prédio, entre outros).

Tipo D: seres humanos momentânea ou permanentemente entretidos com celulares, aparatos tecnológicos em geral e – menos raramente do que se imagina – livros.