Saltos e a cidade

Admiro quem, por livre e espontânea vontade, levanta da cama e sobe num salto antes de partir rumo ao trabalho, principalmente se a partida passar por alguma modalidade de transporte público.

Usar salto é algo que se aprende. E da pior maneira possível: com dores e desequilíbrio. É preciso muita força de vontade para superar uma barreira persistente (zona de conforto, depressão matinal, quase câimbra, o que for). Talvez seja um processo semelhante ao experimentado por quem aprende a fumar, beber e/ou comer salada. O corpo não gosta dessas coisas naturalmente e apenas se acostuma com elas se a mente for forte em seu objetivo.

Uma força de vontade que nunca tive e que nunca entendi. Para mim, enfrentar a cidade é algo perigoso, uma luta – e preciso de um tênis confortável para dar conta disso. Andar pelas calçadas esburacadas, descer e subir escadas, ficar em pé no vagão do metrô. Se, nessas situações, eu sentisse meu dedinho latejando ou o calcanhar ardendo, provavelmente falaria palavrões em voz alta e choraria diante de um misto de raiva, tristeza, desesperança e vazio existencial.

O salto sugere resiliência, a capacidade de se recuperar após uma situação desfavorável. Mesmo que tenha um dia ruim, que leve uma bronca no trabalho, que erre, a dona do salto ainda estará sobre um salto. O dia deu errado, mas o belo sapato continua sendo um belo sapato, e quem o usa deve sentir que ele lhe pertence acima de todas as coisas. Quem usa salto sabe que pode perder a batalha, mas tem alguma certeza de que não perderá a guerra.

O salto, enfim, não é para as pessoas mais sensíveis. Quem sai de casa sobre um salto precisa voltar para casa sobre esse mesmo salto, não importa como tenha sido o dia. O salto não perdoa, não facilita, não é condescendente. Diante de algo ruim, ele grita: “ora, recomponha-se e siga em frente, sem entortar os joelhos!”

Há pessoas que simplesmente não se encaixam nessa lógica. Se algo ruim ocorrer, elas querem sua zona de conforto por perto, e isso inclui um calçado inofensivo e com um grau razoável de amortecimento. Totalmente compreensível. Afinal, saltos exigem demais do espírito humano.

Às vezes, quando o metrô está cheio e eu tenho a sorte de estar sentada, olho para baixo e vejo aquela profusão de saltinhos e saltões. Quanto essas mulheres andaram para chegar até aqui? Muitas devem ter pego um ônibus também. Sabe-se lá quanto tempo passaram no ponto esperando e quanto andaram para chegar até ele. Meu deus, e se o caminho for uma subida?! Tudo o que consigo enxergar diante de um salto é sofrimento. Mas essas pessoas – as que escolhem usar salto – veem algo muito além disso. Concluo que, para elas, o mundo provavelmente é algo mais do que um dia de trabalho ou uma chateação qualquer. O salto as ajuda – e as obriga – a seguir em frente.

O buraco

O buraco tinha uns três metros de diâmetro e já tinha se tornado o grande assunto da vizinhança naquela manhã. “Você foi ver o buraco que abriu na casa do Seu M…?”. A filha dele estava varrendo a escadinha e, assim que alcançou o último degrau, o chão desabou. Diziam que ela não tinha caído por sorte, muita sorte, imagina! Para muita gente aquele tinha sido o tema da primeira conversa do dia. Alguém da família levantava, ia comprar pão e ficava sabendo. Chegava em casa e botava o assunto na roda da mesa do café da manhã.

O portão da casa do Seu M. ficou aberto naquele dia e ninguém precisava bater palmas para anunciar a chegada. Era só ir entrando e dar de cara com o buraco. Dentro dele, uma água suja, fedida e borbulhenta. Ninguém sabia ao certo qual era a profundidade, mas com certeza era muita. Devia ser uma fossa mesmo. Em silêncio, seu conteúdo foi penetrando a terra e enfraquecendo a camada de cimento.

Se vivêssemos num livro do García Márquez, aquele buraco poderia ser o lugar de todas as coisas que mandamos pra longe e que, tempos depois, voltam todas de uma vez, voltam com seus cheiros, sua coloração e sua profundidade desconhecida. Poderia ser o fim do mundo, que chega aos poucos, que primeiro engole uma casa, depois um quarteirão, um bairro, uma cidade e, por fim, um país inteiro. Um fim do mundo anunciado, que antecipa os pedidos de desculpas, os agradecimentos, as pazes e as brigas adiadas, as demissões, os amores que até aquele momento se construíam aos poucos. Uma alegoria até bonita da miséria e da beleza humana.

Mas, aqui, era mesmo só um buraco, e ninguém sabia ao certo o que fazer com ele, se tinha que chamar a Sabesp ou só um pedreiro.

(texto de 2005, talvez)

Jogo do bicho

Ele não sabe escrever. Assina o próprio nome, sim, mas sem entender as descontinuidades entre as letras, sem saber que “a” e “u” são vogais e que o “l” vem antes do “r” no alfabeto.

Mas se as letras não significam muita coisa para ele, os números são, esses sim, o suprassumo do significado. Notinha de supermercado, placa de carro, as horas num relógio digital – vasculha o mundo em busca da “milhar bonita”. Para ser bonita, uma milhar precisa ser sonora: dezesseis-noventa-e-quatro, trinta-e-quatro-quinze, vinte-e-um-trinta-e-três. A milhar bonita nunca começa com zero, nunca é formada por quatro números iguais nem por duas dezenas iguais.

Ele usa as milhares bonitas para jogar no bicho. Impressionante como ele decorou a tabela de quatro números para cada animal. 29 é carneiro, 59 é jacaré, 72 é porco, 73 é pavão, 81 é touro. Se uma borboleta pousa no balcão, escolhe um número entre 13 e 16 e, como sonhou com uma onça, emenda um 85 ou um 87, que é tigre, e tigre é parecido com onça. Treze-oitenta-e-cinco… Taí uma milhar bonita.

“Quanto vai?”. “Hoje vai dez reais”. Se der na cabeça, sai uma grana até que boa.

(texto de 2004, provavelmente)

Breve análise comportamental dos seres humanos em situação de desembarque em estação terminal de metrô na cidade de São Paulo

. Minoria 1 (m1): seres humanos que correm/caminham muito rápido. Geralmente, são os primeiros a deixar o trem após as portas se abrirem e também os primeiros a passar por catracas de entrada/saída ou de transferência.

Subclassificação:

Tipo A: atrasados em geral.

Tipo B: portadores de Síndrome do Intestino Irritável ou de outras anormalidades – crônicas ou agudas – dos sistemas digestivo e/ou urinário.

Tipo C: portadores de Síndrome da Pressa (“correm por correr”).

. Maioria (M): seres humanos que caminham em velocidade típica. Costumam sair do trem logo após indivíduos do tipo m1 e se encaminhar diretamente às escadas. Têm alta tolerância à situação conhecida como “muvuca”.

Subclassificação:

Tipo A: seres humanos conhecidos como “educados”, que não empurram e não tentam “furar” a fila em escadas rolantes, corredores e afins; e/ou que, conscientes da própria velocidade reduzida, concentram-se à direita com o intuito de “dar passagem”.

Tipo B: seres humanos conhecidos como “mal educados” – oposto ao Tipo A, de forma geral.

* observação: Grupo M carece de observações mais detalhadas – que podem ou não resultar na criação de novos subgrupos – dados a heterogeneidade e o grande número de indivíduos que o compõem.

. Minoria 2 (m2): seres humanos que, basicamente, esperam, esperam e esperam mais um pouco; costumam ser os últimos a deixar o trem no momento de desembarque. Não é incomum presenciar alguns deles sendo abordados por fiscais da empresa operadora ainda dentro do trem, dado seu caráter potencialmente procrastinador. São comumente vistos em pé na plataforma de desembarque perto de escadas rolantes, meramente esperando e/ou observando a disputa de espaço que surge logo após a situação de desembarque entre indivíduos do tipo M. Costumam ter baixa tolerância à situação conhecida como “muvuca”.

Subclassificação:

Tipo A: desocupados em geral.

Tipo B: despreocupados em geral.

Tipo C: seres humanos conhecidos como “frescos” (criados no iogurte, piás de prédio, entre outros).

Tipo D: seres humanos momentânea ou permanentemente entretidos com celulares, aparatos tecnológicos em geral e – menos raramente do que se imagina – livros.

A/C Sr. Síndico

Venho por meio deste propor a todos os presentes na próxima assembleia do condomínio XYZ que seja votada, em tal oportunidade, a proposta de que a água da piscina adulta seja substituída, no próximo inverno, por bolas de plástico, nos moldes das tradicionais ‘piscinas de bolinha’ de parques de diversão infantis.

Assim, ficariam garantidos o uso permanente da instalação e uma possível alternativa às caras sessões terapêuticas a que recorrem muitos adultos angustiados e/ou traumatizados nestes tempos incertos.

Sem mais.

O prédio

O  homem comprou o terreno, derrubou a casa abandonada que havia ali e deu início ao empreendimento. Subsolo, primeiro andar, segundo andar, terceiro andar, quarto. Naquele lugar cheio de casas térreas, muito distante de centros financeiros e onde ainda se faz churrasco na praça, aquilo era definitivamente algo ousado. Tinha até o nome de um engenheiro civil numa plaquinha na entrada. Veja só! Nossa! Profissa!

Mas, afinal, o que será esse prédio? Uma igreja? Ele é pastor, dizem. Vamos ter problemas com barulho, então? Nada a ver, melhor que uma balada. Escritórios, ué! Mas aqui?! Podia ser uma clínica… Tem certeza que não são apartamentos? Não dá. Não tem janelas nas laterais. Salão de festa, tá na cara. Será?

Passou-se um ano. Ele, sempre ali, observando com orgulho aquela coisa que tomava a forma de uma imensa caixa. Estacionava o carro em frente, encostava na porta e ficava sorridente a olhar a fachada de cima a baixo.

E, então, seu Fulano, o que vai ser?
Não sei, acho que vou alugar. Vamos ver…

Mais alguns meses e a obra parou. O dinheiro havia acabado no meio daquilo tudo, era o que se dizia.

E lá ficou a construção cinza, parada, silenciosa, esperando para ser qualquer coisa. Começaram a surgir notícias, espalhadas boca a boca, de que alguém havia invadido a obra para roubar material de construção. Ou só para fumar maconha. Foi ontem à noite. E antes de ontem também. Ah, e na terça – você ouviu?

Mais alguns meses e um pedreiro voltou. Solitário. A partir de agora, seria apenas ele o responsável a dar forma e função àquele prédio, por um tempo bem próximo da eternidade. Fios, acabamento, banheiros, piso… Muita coisa faltando.

E a primeira coisa a fazer era expulsar o grupo de gatos da vizinhança que havia adotado aquele lugar abandonado pelos humanos como ponto de encontro. Percebemos isso quando o gato branco e preto voltou assustado da rua, derrapando pelo chão e disposto a ficar dias apenas dormindo em seu lar seguro e entediante. Então, quer dizer que era lá que você passava as tardes?

Desde então, todos os dias começam com um bate-bate de um pedreiro só. De segunda a sábado.

Vamos ver no que vai dar.

Hoje, acho que o prédio pode ser o que ele quiser. Mas tudo no tempo dele.