Passarinhos

Você reparou que não há mais som de passarinhos aqui?

Lembra daqueles que cantavam de manhã? Um canto tão próximo, tão próximo, que pareciam estar aqui dentro de casa… Não lembra? Mas como não?! Foi assim por anos…

Aqueles… sabe? Aqueles que descobrimos depois serem passarinhos engaiolados, que o vizinho deixava à noite na lavanderia e ao longo do dia na varanda.

Então, é desse vizinho que falo, o do 177D. Parece que o apartamento está vazio agora. Ele se mudou, e com ele os passarinhos engaiolados.

Poxa, você ainda não lembra? Os passarinhos! Aqueles que cantavam de manhã. Toda manhã. Gostavam mais das manhãs de sol.

Você não lembra, né? Mas, enfim, é por isso que não os ouvimos mais. Os passarinhos engaiolados foram embora com o dono (e como poderia ser diferente?).

[Já os livres… esses deixaram este lugar há muito mais tempo.]

Signo de Virgem

O apartamento 122-D (fictício, por motivos óbvios) é habitado por dois gatos, um cachorro e muitas certezas.

Tem certeza, diz a moradora, de que só dá pra viver esse monte de gente junto se houver ordem no condomínio. As coisas têm que ser certinhas, sabe? É assim que ela gosta. A piscina pode ser usada por visitantes? (Não respondo. Não é para eu responder. Nunca respondo uma pergunta de alguém que tem certezas.) Não, é para moradores, SÓ para moradores. Então, ela prefere nem ter visitas em casa, que é para não dar problema.

Certezas, diz ela, porque é do signo de Virgem. Virginiana é o adjetivo, certo? Nunca conteste a certeza dos signos de alguém que acredita em signos. Ela se esforça para ser virginiana, dá para perceber. Um esforço de décadas construindo a si mesma segundo as forças e os defeitos de uma certa personalidade estabelecida nas posições, regências, influências e humores dos astros.

Nós, seres humanos, gostamos de caixinhas mentais. De colocar os outros e a nós mesmos em caixas organizadoras etiquetadas. Dormimos bem com a tranquilidade das ideias e personalidades bem ordenadas. Às vezes vem alguém reclamar das caixas e bagunçar tudo e falar que esse sistema está todo errado. Só para reorganizar tudo em um novo sistema de caixas e etiquetas. Mas alguma bagunça sempre fica, e é ela que nos salva.

Reclamaram da sacada dela, enfim. Algo sobre um incômodo com uma planta trepadeira, algo assim, coisa pequena, besta. Concordo: as pessoas aqui têm problemas com plantas. Querem plantas, mas cuidam mal, e então veem as plantas morrerem e alimentam a própria sensação de insuficiência. Alguns acabam até detestando plantas e se incomodam com quem consegue mantê-las vivas e encorpadas. “Mantenha suas plantas no limite da sua sacada. Cidade é lugar de linhas retas.”

Enfim, reclamaram da sacada dela, sendo que são tantas as sacadas aqui com coisas horríveis, ela diz. Mas quem define o que é horrível e o que é belo? (Não questiono. Nunca questiono quem tem certezas – costumo dizer que por preguiça, mas a verdade é que é por medo de rejeição e de conflitos.)

Ela olha nos meus olhos enquanto penso no quanto minha sacada é um pouco horrível (eu sei, e tudo bem) e me serve mais uma certeza: “consigo saber quem são as pessoas só de olhar nos olhos”. Aponta para um rapaz ao lado. “Ele ali, por exemplo, já sei que é ótima pessoa só de olhar no rosto dele.” E sorri. Eu também sorrio. Eu não sou uma ótima pessoa (eu sei, e tudo bem), nisso concordamos.

Ela se despede e segue para o mercado, acompanhada de suas certezas. Parecem conviver bem.