O sentido da vida

Passava o dia a perambular, no espaço e dentro de sua cabeça. Perambulava pela casa, passando os dedos da mão esquerda pelos móveis velhos, para então se apoiar e agachar, procurando o sapato que se escondia sempre por baixo das cadeiras e que às vezes dava de aparecer no quarto sabe-se lá como. Perambulava pelo quintalzinho, e do quintalzinho à calçada e da calçada à outra e a outra e a outra.

No que pensava? “Em nada”, responderia. Repassava os nomes dos amigos de infância na cabeça, percebia que o joelho direito estava um pouco melhor, estalando menos, reparava no pé de jaca, e todos os dias se sentava por volta das 11h no banco da pracinha. Só existia, observava, perambulava. Contemplava o nada, que por ironia é tudo, se tirarmos as tantas e inventadas camadas de verniz que aplicamos às coisas.

Passa um menino correndo com a pipa. Passa o seu Osvaldo indo pro banco. Passa a dona Marilene com uma sacola de verduras. Uma moto barulhenta. O filho do Clóvis dirigindo o carro novo. Outro menino com outra pipa. O carro dos ovos. O Zezé entregando galão d’água.

— Seu João, qual é o sentido da vida?

— Oxe, que nem vi que você tava aí, menina! O quê que você perguntou?

— Qual é o sentido da vida? É um trabalho da escola. A professora mandou a gente perguntar pros adultos qual é o sentido da vida.

— Sentido quer dizer o quê?

— Sentido, ué. Pra quê que a gente vive…

— A gente vive… A gente vive é pra viver, ué. O sentido da vida é pra frente.