Passarinhos

Você reparou que não há mais som de passarinhos aqui?

Lembra daqueles que cantavam de manhã? Um canto tão próximo, tão próximo, que pareciam estar aqui dentro de casa… Não lembra? Mas como não?! Foi assim por anos…

Aqueles… sabe? Aqueles que descobrimos depois serem passarinhos engaiolados, que o vizinho deixava à noite na lavanderia e ao longo do dia na varanda.

Então, é desse vizinho que falo, o do 177D. Parece que o apartamento está vazio agora. Ele se mudou, e com ele os passarinhos engaiolados.

Poxa, você ainda não lembra? Os passarinhos! Aqueles que cantavam de manhã. Toda manhã. Gostavam mais das manhãs de sol.

Você não lembra, né? Mas, enfim, é por isso que não os ouvimos mais. Os passarinhos engaiolados foram embora com o dono (e como poderia ser diferente?).

[Já os livres… esses deixaram este lugar há muito mais tempo.]

Cidadão(s)

Com a mão esquerda no volante e a direita no celular, comentou que tinha uma grana guardada e pretendia investir na bolsa. Um tal fundo de uma tal agência ou algo do tipo que faria R$ 5 mil virarem R$ 1 milhão em coisa de dez anos. Nada dessa enganação de Betina que apareceu na internet. Coisa realista!

“Imagina: com R$ 1 milhão eu me aposento antes dos 40. Vou só investir, colocar dinheirinho ali, aqui, pã, pã… E tô feito! Vou morar na Riviera, hein! Sensacional.”

Parou no farol, fez que não com a cabeça para qualquer coisa que o homem do outro lado do vidro dizia.

Ah, lá, pedindo dinheiro a essa hora, hora de tá trabalhando… Moleza isso aí. Pegar no pesado esse aí não quer, né?”

O sentido da vida

Passava o dia a perambular, no espaço e dentro de sua cabeça. Perambulava pela casa, passando os dedos da mão esquerda pelos móveis velhos, para então se apoiar e agachar, procurando o sapato que se escondia sempre por baixo das cadeiras e que às vezes dava de aparecer no quarto sabe-se lá como. Perambulava pelo quintalzinho, e do quintalzinho à calçada e da calçada à outra e a outra e a outra.

No que pensava? “Em nada”, responderia. Repassava os nomes dos amigos de infância na cabeça, percebia que o joelho direito estava um pouco melhor, estalando menos, reparava no pé de jaca, e todos os dias se sentava por volta das 11h no banco da pracinha. Só existia, observava, perambulava. Contemplava o nada, que por ironia é tudo, se tirarmos as tantas e inventadas camadas de verniz que aplicamos às coisas.

Passa um menino correndo com a pipa. Passa o seu Osvaldo indo pro banco. Passa a dona Marilene com uma sacola de verduras. Uma moto barulhenta. O filho do Clóvis dirigindo o carro novo. Outro menino com outra pipa. O carro dos ovos. O Zezé entregando galão d’água.

— Seu João, qual é o sentido da vida?

— Oxe, que nem vi que você tava aí, menina! O quê que você perguntou?

— Qual é o sentido da vida? É um trabalho da escola. A professora mandou a gente perguntar pros adultos qual é o sentido da vida.

— Sentido quer dizer o quê?

— Sentido, ué. Pra quê que a gente vive…

— A gente vive… A gente vive é pra viver, ué. O sentido da vida é pra frente.

8 de março :: A mulher e a flor

Foi no trabalho. Algum tipo de ação especial realizada pelo RH, sei lá. O estagiário passou com uma cesta cheia de botões de rosa envoltos em papel laminado. Foi entregando uma flor para cada mulher do departamento.

Ela deu um sorrisinho qualquer, disse um obrigada qualquer, pegou a tal flor que lhe incubiram e deixou sobre a mesa, ao lado do computador. Até pensou em dizer que não queria, mas ficou com dó do menino que distribuía os botões de rosa – coitado, parecia muito envergonhado – e achou melhor deixar pra lá. Voltou às planilhas.

Ficou a flor ali o dia todo. E o dia todo um ou outro colega dando seus “parabéns pelo dia da mulher”, mensagens em fundo rosa com poeminhas ridículos chegando no grupo de e-mail… “Mulher: beleza e mistério”, “bem aventurada quando ao redor dela acolhe, faz crescer e protege a vida” (mas que porcaria isso quer dizer?), “exemplo de amor”.

Já existe um dia do homem para mandarmos mensagens explicando a eles mesmos sua suposta “essência” segundo estereótipos babacas?

Na hora de ir embora, outra dúvida: o que fazer com a tal flor, de cabo imenso? Não cabe na bolsa… Isso no trem lotado vai encher o saco.

Jogou a flor na lixeirinha embaixo da mesa. Uma colega viu:

— Ué, vai jogar a flor no lixo?

— Vou. Não cabe na bolsa.

— Leva na mão. Não vai pegar bem se o pessoal ver que você jogou o presente no lixo.

Acatou, bovinamente. Caminhou pela rua segurando a tal flor – ela e tantas outras mulheres que desciam dos edifícios de escritório àquela hora. Os mesmos botões de rosa, envoltos no mesmo papel laminado. A mesma cara de nada e a vontade de só ir pra casa.

E lá ia ela, sentindo-se obrigada a carregar sua feminilidade na mão. Sua identidade de fêmea, seus cromossomos xx, seu ser que era “pura emoção”, “talento para o cuidar”, “montanha-russa hormonal, amor e beleza”… e “delicadeza”… aquela para quem se abre a merda da porta…

Chegando à entrada do metrô, sabia bem o que fazer.

Jogou a flor na sarjeta.

Pisoteou o caule e as pétalas até sentir que pelo menos uma parte da raiva tinha ido embora.

Foi a melhor parte do dia.

flor

Desanuviando

Havia tirado o cacto de dentro de casa, assim como uma caixa marrom que guardava os cacos de um copo quebrado. Havia limpado o fogão. Jogado o lixo fora. Feito uma limpa no guarda-roupa e se livrado, finalmente, da calça em que nunca coubera. A calça, agora desbotada, que ela comprara para usar no dia em que se visse livre dos dez quilos que julgava excessivos. Os dez quilos permaneceram, e a calça nunca serviu de calça – só de lembrete incômodo.

Fizera tudo isso numa tentativa de melhorar o clima da casa, livrar-se da energia parada e encardida. Quem sabe… Quem sabe funcionasse. Talvez essas pequenas tarefas ajudassem a restabelecer o equilíbrio entre suas conexões cerebrais. Talvez desfizessem as pequenas inflamações que agoniavam de leve o intestino, a pele do rosto e a gengiva. Como uma meditação. Ou um suco detox. Ou algo transcendental mesmo, envolvendo espíritos ou raios cósmicos indetectáveis ou plasma ou signos ou a fase da lua ou seres da quarta dimensão.

Tudo uma tentativa de desanuviar e finalmente se livrar da sensação de torpor.

torpor (1488 [?] VerSacr) ortoépia: ô
substantivo masculino
1 indiferença ou apatia moral; indolência, prostração
2 sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade
3 med ausência de reação a estímulos de intensidade normal

Precisava almoçar, avisava o estômago, e nossa personagem decide ir até um shopping, desses aglutinados com estações de metrô.

Caminha até a estação, roda a catraca, desce as escadas, entra no vagão. Fica observando as pessoas, todas com cara de angústia.

Desce na estação terminal, acessa o shopping, chega à praça de alimentação, come um prato de espaguete ao molho de camarão. Estava boa a comida, sem dúvida, mas ainda não o suficiente para desanuviar, para limpar o entorpecimento, a apatia, a preguiça, a moleza, a melancolia.

Quem sabe com a digestão…

Decide ir embora. Desce as escadas rolantes, cruza com mais pessoas pelo caminho. Todas com cara de angústia, de algo preso na garganta, um bololô que não desce para o estômago nem sai em forma de arroto ou vômito.

De repente, o convite em forma de grito meio cômico:

– Linda, não quer vir aqui fazer um spa com a gente?

Era o vendedor de um quiosque de produtos de beleza. O que havia em seu modo de falar? Algo de humor, de alegria, de descaramento. Fazer um spa? Num quiosque de shopping? Lambuzar-se de creme pra cara, pro colo, pros braços, pras pernas, pro calcanhar áspero, botar umas rodas de pepino nos olhos, uma toalha aquecida enrolada na cabeça… estender um colchonete e deitar ali, no meio do corredor, de frente para uma loja de armações de óculos. Empapada de creme hidratante.

Nossa personagem acha a proposta engraçada, sinceramente. Engraçada, e só, sem raivinha nenhuma. Sem interpretação irônica nem nada. Só engraçada. Sorri, diz um “não, obrigada” em baixo volume e continua andando.

E de repente o torpor começa a ir embora. Sai aos poucos, com o ar dos pulmões a cada expiração.

Deixa o shopping, roda a catraca, desce as escadas, senta-se num banco de um vagão de metrô vazio. Um momento de tranquilidade e leveza, como não vivia há muito tempo. Enquanto a composição desliza pelos trilhos, nossa personagem pensa no convite engraçado não aceito. O que havia ali? Uma graça, um leve susto, um chacoalhão? Seria o torpor um estado de decantação, do qual só se sai com uma sacudida que venha de fora?

Caminha até sua casa debaixo de uma chuva que chega com pingos pesados.

Talvez da próxima vez acabe aceitando o convite para o spa.

Baratinhas

Há dias em que eu acordo já sabendo que encontrarei umas baratinhas pela casa. Inhas, baratinhas, dessas discretas e variadas. Existem as compridinhas, as redondinhas, as palidinhas, as escurinhas, francesinhas, alemãzinhas, umas tão minúsculas que alguns diriam nem merecer a alcunha pesada de barata. Barata, coisa séria, sisuda, autoridade. Mas são baratas, eu sei, porque aparecem junto com as outras, dividem os espaços, fazem conluio. Todas paulistinhas, tanto quanto eu.

Eu sei que é só procurar. Porque essas baratinhas existem tanto quanto minha certeza de insuficiência. Tudo o que fiz, os inseticidas, as iscas, a faxina, os pratos quebrados no susto… Nada é suficiente para garantir a ausência total e completa, 0% de baratinhas. Mas se até os sabonetes bacteridas são 99% eficientes, imagine eu, que mal me esforço.

É que as baratinhas vêm de dentro, entende? Não de mim, claro, que ainda não atingi esse nível de leitura da realidade, mas do prédio, das paredes, da laje, dos buraquinhos no concreto. Elas se criam nos espaços que não vemos e que, por não vermos, são o não-espaço. Passam pelo buraquinho titico de nada que nem existe.

As baratinhas são diferentes das baratas de peso, as grandes, as voadoras, os baratões. Já falei? Essas vêm de fora, voando pela janela ou caminhando pela fachada do edifício. Outro dia vi uma caminhar rapidamente pelo revestimento externo texturizado até desaparecer (entrar pela sacada) por volta do nono ou décimo andar.

Sim, as baratinhas… Há esses dias em que acordo e sei que vou encontrá-las. É só buscar os sinais: cisquinhos pretos acumulados nos cantinhos. Uma pessoa otimista diria ser pó de café, poeirinha, mas eu não me iludo. Sei que é cocô de baratinha.

Lá estão os cisquinhos pretos embaixo de uma dobradiça de armário. Baratinhas adoram dobradiças de armário, eu sei. Sei muito sobre elas: que se escondem durante o dia, que saem à noite em busca de comida, que gostam de restos, de comida de cachorro, de comida de gato, que são canibais. Fiz minhas pesquisas.

Uma esguichadinha de inseticida e voilà: cai a primeira, redondinha, uns 4 milímetros de tamanho; alguns segundinhos e cai a segunda, compridinha, magrelinha, uns 9 milímetros. Nojinho. Talvez sintam o mesmo em relação a mim. Sentiam, porque agora mortas. Mortinhas. Elas ou eu? (Aquela pergunta de fundo filosófico para constar, em respeito a você, leitor, porque um texto sobre baratinhas jamais poderia ser só um texto sobre baratinhas, onde já se viu?)

Vitória, mas também derrota. Vitoriazinha, derrotinha. Vêm a calhar.

 

A melancolia dos balões luminosos

Desde que vi pela primeira vez esses balões sendo vendidos no semáforo perto da casa, penso em escrever sobre eles.

Pensei em escrever sobre como achei bonitos aqueles enormes buquês de bolas transparentes com led colorido passando entre os carros parados, à noite. Como eu gostaria de levar um para casa, apagar a luz e ficar olhando para os pontos azuis, vermelhos, verdes. Como eles remetiam ao espaço, às estrelas, às galáxias, à infância das coisas recentes.

Depois, pensei em escrever sobre a organização do comércio ambulante. Ao cair da noite, quem vendia água, chocolate ou carregador de celular passa a oferecer os tais balões. Buquês e buquês de luzinhas coloridas indo pra lá e pra cá entre carros brancos, pretos e cinzas.

Pensei em escrever sobre o que há por trás dessa beleza cintilante. Na calçada, vejo um balão desses apagado: um pirulitão de plástico, fios, mais plástico, duas pilhas pequenas. O vendedor tenta fazer um deles voltar a funcionar usando fita adesiva. Quantos será que ele vendeu hoje? Quantos precisa vender?

Um objeto provavelmente produzido por mãos chinesas, colocado por outras mãos em alguma caixa, transportado por navio, vendido por mãos brasileiras que se arriscam por algum (qualquer) dinheiro na avenida movimentada, passando depois para as mãos de uma mãe ou de um pai cansado, chegando às mãos de uma criança que ainda consegue se deslumbrar com todo aquele colorido.

E um dia aquele colorido se tornará só um amontoado de plástico desbotado, um lembrete melancólico de luzinhas que já não se acendem mais – e, mesmo que se acendessem, não deslumbrariam mais ninguém.

Não sei se deveria escrever sobre isso.