Cidadão(s)

Com a mão esquerda no volante e a direita no celular, comentou que tinha uma grana guardada e pretendia investir na bolsa. Um tal fundo de uma tal agência ou algo do tipo que faria R$ 5 mil virarem R$ 1 milhão em coisa de dez anos. Nada dessa enganação de Betina que apareceu na internet. Coisa realista!

“Imagina: com R$ 1 milhão eu me aposento antes dos 40. Vou só investir, colocar dinheirinho ali, aqui, pã, pã… E tô feito! Vou morar na Riviera, hein! Sensacional.”

Parou no farol, fez que não com a cabeça para qualquer coisa que o homem do outro lado do vidro dizia.

Ah, lá, pedindo dinheiro a essa hora, hora de tá trabalhando… Moleza isso aí. Pegar no pesado esse aí não quer, né?”

Desanuviando

Havia tirado o cacto de dentro de casa, assim como uma caixa marrom que guardava os cacos de um copo quebrado. Havia limpado o fogão. Jogado o lixo fora. Feito uma limpa no guarda-roupa e se livrado, finalmente, da calça em que nunca coubera. A calça, agora desbotada, que ela comprara para usar no dia em que se visse livre dos dez quilos que julgava excessivos. Os dez quilos permaneceram, e a calça nunca serviu de calça – só de lembrete incômodo.

Fizera tudo isso numa tentativa de melhorar o clima da casa, livrar-se da energia parada e encardida. Quem sabe… Quem sabe funcionasse. Talvez essas pequenas tarefas ajudassem a restabelecer o equilíbrio entre suas conexões cerebrais. Talvez desfizessem as pequenas inflamações que agoniavam de leve o intestino, a pele do rosto e a gengiva. Como uma meditação. Ou um suco detox. Ou algo transcendental mesmo, envolvendo espíritos ou raios cósmicos indetectáveis ou plasma ou signos ou a fase da lua ou seres da quarta dimensão.

Tudo uma tentativa de desanuviar e finalmente se livrar da sensação de torpor.

torpor (1488 [?] VerSacr) ortoépia: ô
substantivo masculino
1 indiferença ou apatia moral; indolência, prostração
2 sentimento de mal-estar caracterizado pela diminuição da sensibilidade e do movimento; entorpecimento, estupor, insensibilidade
3 med ausência de reação a estímulos de intensidade normal

Precisava almoçar, avisava o estômago, e nossa personagem decide ir até um shopping, desses aglutinados com estações de metrô.

Caminha até a estação, roda a catraca, desce as escadas, entra no vagão. Fica observando as pessoas, todas com cara de angústia.

Desce na estação terminal, acessa o shopping, chega à praça de alimentação, come um prato de espaguete ao molho de camarão. Estava boa a comida, sem dúvida, mas ainda não o suficiente para desanuviar, para limpar o entorpecimento, a apatia, a preguiça, a moleza, a melancolia.

Quem sabe com a digestão…

Decide ir embora. Desce as escadas rolantes, cruza com mais pessoas pelo caminho. Todas com cara de angústia, de algo preso na garganta, um bololô que não desce para o estômago nem sai em forma de arroto ou vômito.

De repente, o convite em forma de grito meio cômico:

– Linda, não quer vir aqui fazer um spa com a gente?

Era o vendedor de um quiosque de produtos de beleza. O que havia em seu modo de falar? Algo de humor, de alegria, de descaramento. Fazer um spa? Num quiosque de shopping? Lambuzar-se de creme pra cara, pro colo, pros braços, pras pernas, pro calcanhar áspero, botar umas rodas de pepino nos olhos, uma toalha aquecida enrolada na cabeça… estender um colchonete e deitar ali, no meio do corredor, de frente para uma loja de armações de óculos. Empapada de creme hidratante.

Nossa personagem acha a proposta engraçada, sinceramente. Engraçada, e só, sem raivinha nenhuma. Sem interpretação irônica nem nada. Só engraçada. Sorri, diz um “não, obrigada” em baixo volume e continua andando.

E de repente o torpor começa a ir embora. Sai aos poucos, com o ar dos pulmões a cada expiração.

Deixa o shopping, roda a catraca, desce as escadas, senta-se num banco de um vagão de metrô vazio. Um momento de tranquilidade e leveza, como não vivia há muito tempo. Enquanto a composição desliza pelos trilhos, nossa personagem pensa no convite engraçado não aceito. O que havia ali? Uma graça, um leve susto, um chacoalhão? Seria o torpor um estado de decantação, do qual só se sai com uma sacudida que venha de fora?

Caminha até sua casa debaixo de uma chuva que chega com pingos pesados.

Talvez da próxima vez acabe aceitando o convite para o spa.

Uma segunda-feira após a outra

Ninguém mais sabe dizer há quanto tempo exatamente tivemos nosso último sábado – e domingo, e sexta, e todos os outros dias que não são segunda-feira.

Eu chutaria uns cinco anos. Há cinco anos decidimos, coletivamente, viver uma eterna segunda-feira, o dia 16 de julho de 2018. E, desde então, a rotina se repete: dormir mal, acordar mal, encarar o engarrafamento e os ônibus lotados para começar uma longa semana – que, agora, é mais do que longa… é infinita.

Sempre soubemos, no fundo, que o universo humano é uma invenção. Semanas divididas em sete dias – no máximo dois deles para descansar, os demais dedicados a uma melancólica produtividade.

Quando as invenções são vividas por uma única pessoa ou um pequeno grupo, chamamos de loucura. Quando são aceitas pela maioria, chamamos de normalidade.

Então, criamos essa atual normalidade de uma segunda-feira que se repete a cada 24 horas infinitamente. Já estão todos acostumados: ninguém mais se atreve a dizer (nem pensar, óbvio) que às 00h01 começou uma terça-feira. Depois da segunda vem outra segunda, sempre segunda, dia de lamentar o fim de semana insuficientemente vivido. De aceitar que não é fácil, mas é honrado. De acelerar o crescimento econômico que nos levará todos juntos a lugar nenhum.

Também têm feito parte da normalidade os arroubos de fingimento de que o futuro próximo nos aguarda com uma sexta ou um sábado – sintoma de pseudoesperança que, creio eu, em breve desaparecerá e entrará para a História como uma anedota bizarra do passado.

Enfim… O fato é que ainda é comum encontrar, em torno das máquinas de café, pessoas conversando sobre os planos para o fim de semana que nunca virá: descer para a praia, fazer um churrasco no quintal, visitar os tios.

— Acho que vou levar meus filhos no parquinho.

— Queria ir no cinema…

— Chega disso, gente. Vocês ainda não se tocaram de que vivemos uma segunda-feira faz pelo menos uns cinco anos?

— Credo! Guarda esse negativismo pra você.